quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sem esquecimento não haveria felicidade

O esquecimento é como a digestão corporal: tritura, pulveriza, desfaz as experiências, assimila-as



Sem capacidade de esquecimento não haveria felicidade, nem jovialidade, nem esperança, nem sequer orgulho. De que poderia me orgulhar se continuamente recordasse todas as minhas humilhações? Que esperança me pode restar se diante de mim aparecessem todos os meus fracassos, como se tivessem projetados em uma tela? Que jovialidade poderia se manter se recordasse todas e cada uma de minhas caduquices?

De Michel Foucault

domingo, 1 de junho de 2014

Os corações nos caminhos

Praia do Sono, na divisa do litoral Norte paulista e o Sul fluminense, tinha sido desde muito tempo um desejo de descoberta quase mítico. Ouvira falar muitas vezes, mas imaginava uma grande dificuldade de acesso. Lá não chega carro, não tem pousada, apenas uma comunidade de pescadores, que serve comida em seus ranchos de pesca. Até que um dia uma faceira amiga de aventuras topou e lá fui para Sono.

Saindo de Paraty, uns 13 km em direção ao Sul, pega a estrada de Trindade, mas no ponto mais alto, bifurca à esquerda até a portaria do luxuoso condomínio Laranjeiras. Da portaria, quem vai para o Sono é orientado a pegar um caminho que leva ao lado pobre do condomínio, onde vivem os empregados das mansões. Por ali, o caiçara abandonou as atividades da pesca para se tornar empregado doméstico.

O carro fica estacionado na vila e quem vai paro o Sono começa uma caminhada de uma hora mais ou menos por trilha íngreme que margeia o mar. Há belíssima paisagens, cachoeiras, pequenos animais e muita, muita árvore linda, uma mais linda que a outra. Voltei lá muitas vezes, o caminho tornou-se fácil com o tempo, mas aquela primeira expedição foi cheia de sentidos.

Quando descemos a última parte da trilha,  e botei o pé na areia grossa, finalmente entendi o que é a Praia do Sono: uma maravilhosa extensão de mar verde-escuro, de bravura branda, com uma longa borda branca e borbulhante, todo margeado por imensos chapéus-de-couro, de frondosos ramos que acolhem os ranchos de pesca e oferecem generosa sombra. É um desejo de não despertar, de ser absorvido por aquela beleza e não retornar nunca mais.

Seguimos caminhando pela areia. Eu estava encantada, aliviada de ter vencido a temida trilha, de estar naquele lugar que a geografia protegeu da chegada civilizatória e da consequente deterioração que se vê em praias e comunidade da região.

Subindo a faixa de areia, que não é muito larga, no terreno plano, de chão batido, ficam os ranchos dos pescadores e mais ao fundo as casinhas caiçaras, de pau-a-pique, pintadas de branco, com janelinhas ao lado da porta e uma chaminé, igual os desenhos da minha infância.  Não há cerca nem muros, as crianças brincam à vontade, é cheio de vira-lata, os homens reunidos costurando as redes e as mulheres em seus afazeres. No extremo da praia tem uma entrada para a comunidade, tudo por trilha, margeando um riacho que vem da Serra, e quando se encontra alguém no caminho, é sempre bom dia, boa tarde, porque essa gente é simples, mas é educado cumprimentar, tratar por senhor, senhora.

Por umas três ou quatro da tarde decidimos que era hora de pegar o caminho de volta. Seguimos pelos ranchos, protegendo de chuva fina que veio com uma virada do tempo. De longe, avistei um rancho cheio de gente sentada nos caibros laterais, era feriado de ano novo, férias e sempre tem turista por ali. Passando pelo rancho, sou surpreendida por um "professora"!

Paralisei. Estava na minha frente um rapaz alto, negro, de drede no cabelo, vestido como um hippie, segurando um pano preto pendurado de brincos de miçangas e penas coloridas. "Não lembra mais de mim?"

Ainda que eu estivesse sob efeito alucinógeno, conseguia raciocinar para ter certeza de que aquele não tinha sido, definitivamente, meu aluno. Eu era professora numa escola da zona sul de São Paulo, particular e cara. "Se você tivesse sido meu aluno, eu me lembraria", respondi. Ele caiu na risada. Mostrando uma boca com poucos dentes, apontou uma garota e respondeu: "tô brincando, professora, ela é sua aluna".

A moça sentada entre a galera tinha os cabelos crespos soltos, usava um brinco do hippie, roupas largas e sorria para mim, se divertindo com a brincadeira e com a cara de susto que eu devia estar. Veio até mim e me abraçou feliz. "Que legal te encontrar aqui, professora!"

Fiquei um tempo olhando, buscando o reconhecimento: era uma aluna atenta e muito quieta, que sentava na primeira fileira e estava sempre com um uniforme verde escuro e cabelo preso, talvez exigência de uma função burocrática. Tinha perdido a prova final, mas eu  - sei  lá por que, talvez porque a fosse encontrar lá no Sono - tinha resolvido aprová-la sem prova nem trabalho extra, quando veio me pedir ajuda no final do semestre, pelo simples fato de que tinha sido assídua e ouvinte atenta - coisas que sempre achei que devessem bastar a um aluno de graduação: atenção, interesse, envolvimento, presença.

Mais raro que um professor encontrar o aluno certamente é o aluno encontrar o professor... numa praia de pescadores, onde só se chega à pé ou de barco. Jamais me esquecerei dela, ainda que não lembre seu nome.

Aquele encontro, naquele momento e naquele lugar, foi só uma pequena prova de que as decisões que tomei nem sempre foram as mais coerentes, nem os caminhos, os mais fáceis.

Minha razão sempre se mostrou falha, mas minha intuição me reservou boas surpresas. Já nos atalhos, me cansei de encontrar corações, aquele foi só mais um.

 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Amor perdido

Há tempos tento me convencer que tudo foi como tinha de ser, que não rolou porque não tinha que rolar. Mas não consigo acreditar nisso. Tudo que eu mais queria eram teus beijos, fazer o que toda mulher apaixonada quer, dar para o cara que ela está afim, que ela ama. Naquele momento eu estava louca por você e hoje decidi enxugar as lágrimas para falar da trepada que não rolou, desse amor agora perdido.  

Eu só queria dar para você e estraguei tudo. Que merda!  

Você foi a pessoa mais legal, mais tudo a ver que tive a sorte de encontrar nos últimos tempos. E, a única coisa que suaviza a raiva de mim mesma é tentar acreditar que nunca ia dar certo, que jamais você se apaixonaria por alguém que nem em toda a vida conseguiria ler os livros que você já leu, entender os temas que você entende, assistir os filmes que você assiste, falar as línguas que você fala...  

Você não sabe o quanto me acho tola por não perceber que, pelo menos naquele momento, o mais importante era o tesão.  Por que isso não me bastou, por que eu tinha de achar que precisava ser outra pessoa? Queria mesmo era ter tirado a calcinha cor de rosa e aberto as pernas para você, ter colocado meus peitos na tua boca, ter-lhe dado a chupada da tua vida porque aí, mesmo que você desvendasse todos os meus segredos numa única noite e nunca mais me quisesse, você jamais me esqueceria.  

Acabei escondendo o melhor de mim. Que merda.

Tudo que eu precisava era manter o espírito livre, desencanar das certezas e ir contigo para aquele hotelzinho ali do centro, onde a gente pudesse trepar tantas vezes tivéssemos vontade e fazer todas as coisas que tínhamos imaginado naqueles dias que precederam nosso encontro, pelo chat. Havia química, nosso astral batia,  o tesão rolava. Estávamos atraídos pela pele, pelas mãos,  pelo cheiro. O beijo tinha dado certo. Tudo bem que podia não ser nada do que imagináramos, mas agora é tarde demais para saber. O tesão pode ter ido irremediavelmente embora. E eu não peguei no teu pau, não provei da tua porra, não sussurrei no teu ouvido "mete, me fode gostoso". Não gozei na tua boca.

Que merda - não consigo parar de repetir a mim mesma. 

Nosso primeiro encontro foi o melhor. Ainda me restava alguma segurança. Mas ali já dei início aquele papinho bobo de quero ser sua amiga. Eu devia ter chegado naquele café, sentado do teu lado, encarado teu olhar e ter dito com toda a franqueza: "Eu estou louca de tesão". E você tinha aquele perfume maravilhoso, chegou a falar de uma possível paixão e me fez uma pergunta que só depois eu saberia a resposta. Sim, eu assistiria teus filmes, leria teus livros, ouviria teus CDs, tentaria decorar teus poemas preferidos e tiraria a roupa, chuparia teu pau, ficaria de quatro cada vez que você me desejasse.   

E fui dando sequência às infantilidades. Durante o jantar, no nosso segundo encontro, naquele japonês perto dos Arcos, eu não conseguia expressar nenhuma coisa inteligente e perdi a oportunidade de ouvir de novo os versos do Bandeira (que eu torço para que você se lembre deles).  O decote era ousado e chamava sua atenção, eu tinha depilado a virilha e já estava com a calcinha molhada só de esfregar suas coxas. Mas ao invés de seguir contigo, fugi naquele táxi amarelo. 

O tesão que ainda me queima me diz que qualquer coisa teria sido melhor do que isso agora. A tua presença silenciosa na rede, as entradas e saídas do FB sem nunca mais piscar o alerta das mensagens a me avisar que lá vinha você, querendo falar sacanagem, ficar de pau duro de novo e bater uma punheta enquanto te fazia imaginar que era eu debruçada na tua frente, te chupando loucamente para depois ser passionalmente comida por você. 

E, finalmente, a aquele terceiro encontro, o pior de todos. Teria sido lindo o passeio pelos casarões e ruas estreitas, livrarias e cafés, mas me superei na estupidez. Nenhuma resposta honesta. Só um desejo desesperado de aprovação, que tu cruelmente me negaste. Tentativas inúteis de consertar o que já não tinha mais conserto. E ainda que tivesse restado em ti um pouco do tesão que o movera até ali, o fogo se esvaneceu frente às minhas frágeis tentativas de parecer aos teus olhos um pouco melhor do que imagino que sou. 

Escondi o que eu sentia e agreguei burrice a tudo. 

Pior é ser consumida pela noção de que aquela mulher que despertou teu desejo existe. Há em mim um pouco de tudo que imaginaste. Minha natureza romântica, submissa, passiva, só queria ser possuída por você. Falaria o que quisesses ouvir, juraria, cederia, fingiria ser eternamente tua quando teus instintos estivessem exaltados e praticaria todas os outros verbos que rimassem com aquela possível paixão.   

Camuflei meus desejos, tentei controlar nossos destinos. Boicotei o lance mais legal que rolou desde há muito tempo. E tudo que consegui foi aquele beijo na testa de despedida. 

Não era isso que eu desejava, o teu respeito, no lugar do teu pau e dos teus versos? 

Foi o que me deste. Foi o que mereci. Que merda.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Recordações de uma repórter

Noites quentes de verão costumam me trazer à lembrança os meses que trabalhei como repórter do jornal O ValeParaibano, na sucursal de Caraguatatuba, no litoral Norte paulista. O cargo era ocupado por Salim Burihan, intrépido repórter, meu amigo até hoje, que acabara de ser contratado pela Folha de S. Paulo, o que me deu a oportunidade de ir para lá. Coincidiu que minha família herdara um sobrado no bairro do Tinga, que ninguém usava, e me mudei para Caraguá. Levei ou comprei, não lembro, uma bicicleta, que eu usava para fazer matérias em locais mais próximos; aprendi a fotografar, com a ajuda do chefe da fotografia do Vale, Paulo Torraca e, em muitas ocasiões minhas reportagens eram capa do jornal. 

Cobria crimes ambientais, quase sempre. Desmatamentos na Serra do Mar, prisão de palmiteiros, manchas de óleo no mar (que vazavam dos petroleiros sucateados da Petrobrás), ocupações ilegais, pesca predatória, lixo nas praias, esgoto lançado no mar e mais um tanto de coisas. Em outubro de 92 cobri as operações de resgate dos ocupantes de um helicóptero arremessado ao mar por uma tempestade, num local chamado Ponta Negra, limite de Ubatuba e Paraty, cujos um dos corpos, o do deputado Ulysses Guimarães, como todos sabem, jamais foi encontrado. Passei quase uma semana no condomínio de luxo que servia de base para as equipes de busca, junto com um batalhão de repórteres e fotógrafos, acompanhando o resgate. Conheci o Gabeira cobrindo para a Zero Hora, o Ernesto Paglia, para a Rede Globo. Fiquei tostada, porque ficávamos o dia todo lá, sem proteção, água ou comida, esperando a informação que seria a matéria do dia. Aprendi muito naquela cobertura.

Mas o melhor tempo da minha vida de correspondente aconteceu no dia que entrei no botequinho ao lado da sucursal e descobri um pessoal lendo as minhas matérias nas laudas de jornal que eu havia jogado fora. Sim, naquele tempo a gente escrevia tudo em laudas datilografadas numa Olivetti. Eles tinham recolhido a pilha (de uns 15 centímetros de altura), com todas as matérias que eu havia publicado nos últimos meses e se divertiam lendo as historias. Fiquei intrigada, afinal,  não tinham lido no jornal? Curiosamente, entendi que ler na lauda lhes parecia mais interessante. Eles recordavam as histórias esquecidas, podiam ler aleatoriamente, ver as palavras cortadas ou acrescidas de última hora, entender detalhes das reportagens que o jornal, nos processos de edição, tivessem tirado o gosto. Lembro de perguntar porque liam as laudas e alguém respondeu, "tá gostoso de ler aqui". Simpatizei com eles e formamos uma amizade que duraria todo aquele verão e que eu guardo como um dos melhores tempos da minha vida. 

O grupinho era formado pelo Mané Português, dono do bar, o Henrique, contato publicitário do jornal e a menina do administrativo, cujo nome não lembro. Embora fôssemos colegas, foi a partir daquele momento que nos tornamos amigos. Éramos pobres, tínhamos uma vida marginal. Eu, apesar de jornalista e de gozar de algumas regalias, não queria compactuar com a vida tosca da cidade e preferia a companhia dos meus novos amigos. Henrique emprestava do colega de quarto um fusca 67 ou 69 (emprestava!), um cacareco e a gente dava altos rolês pela região. No auge daquele verão de 92/93, fazia um calorão dos infernos, faltava água na cidade, a gente passava sufoco o dia todo, mas a noite íamos nos refrescar no "polção".

Tinha uma placa, escrito assim mesmo, na entrada do local. Um grande poço, formado por uma cachoeira, em meio a mata, que servia de luxuosa banheira para aliviar o calorão daquele meses quentes. Ficávamos os quatro, cada um acocorado numa pedra, durante uma hora ou mais, até o corpo gelar. A gente parava o carro longe, atravessava uma cerca de arame farpado, pegava uma trilha e seguia até o poço, com o Mané Português, medroso que era, mandando falar baixo para não despertar a atenção da dona do terreno que a gente atravessava.  Foram muitas noites ali, contando histórias, reclamando e rindo da vida. Até hoje fecho os olhos e me recordo das sensações de prazer e medo que aqueles banhos noturnos, no meio do mato, com os barulhos estranhos da noite, me proporcionavam. 

Um dia me avisaram que o sobrado tinha sido vendido e, com a pobreza do salário que eu recebia, me mudei para a casa onde funcionava a sucursal. Eu morei na sucursal uns três meses ou mais! De dia, escrevia as matérias; à noite, tirava um colchão de trás do armário, colocava no chão e dormia por lá mesmo. Mais de vinte anos se passaram e ainda me pergunto como fui capaz. A sucursal tinha um vigilante noturno, um brutamonte que me considerava patrimônio do jornal. Eu costumava ficar sabendo, dias depois, que tinham me procurado, alguém me chamando para uma cerveja, e ele dizia que eu não estava e depois justificava que era para me proteger...

Naquela época, um colega da Gazeta Mercantil sugeriu que eu escrevesse essa história: uma repórter que morava dentro da sucursal, fazia matérias de bicicleta e tomava banho de cachoeira à noite. Prometi que o faria e agradeço pelo incentivo, embora não saiba mais onde encontrá-lo para dizer que, hoje, finalmente, cumpri a promessa. 





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


"A paixão é mentir tudo o que você não é. 
O amor é começar a dizer a verdade." 

(Fabrício Carpinejar)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A TREPADA QUE NÃO ROLOU

Desde que nos vimos pela última vez tenho tentado me convencer que tudo foi como tinha de ser, que não rolou porque não tinha que rolar. Mas não consigo acreditar nisso. Tudo que eu mais queria eram teus beijos, fazer o que toda mulher apaixonada quer, dar para o cara que ela está afim, que ela ama. Naquele momento eu estava louca por você. Aproveito hoje, que o Rossi morreu, para falar deste amor perdido, da trepada que não rolou, do que podia ser e não foi. Enxugo as lágrimas para confessar:

Eu só queria dar para você e estraguei tudo. Que merda fui fazer!  

Você foi a pessoa mais legal, mais tudo a ver que tive a sorte de encontrar nos últimos tempos. E, a única coisa que ameniza essa raiva de mim mesma, é tentar acreditar que nunca ia dar certo, porque eu nunca seria suficiente para você;  que jamais você se apaixonaria por alguém que nem em toda a vida vai conseguir ler os livros que você já leu, entender os temas que você entende, assistir os filmes que você assiste, falar as línguas que você fala...  

Você não sabe o quanto me acho tola por não perceber que mais importante era o tesão, e que naquele momento você estava afim de mim, me queria.  Por que isso não me bastou, por que eu tinha que tentar ser e fazer coisas que não sou? Queria mesmo era ter tirado a calcinha cor de rosa e aberto as pernas para você, ter colocado meus lindos peitos na tua boca, ter-lhe dado a chupada da tua vida porque aí, mesmo que você desvendasse todos os meus segredos numa única noite e nunca mais me quisesse, ainda assim jamais me esqueceria.  

Acabei escondendo o melhor de mim, minha melhor porção. Que merda.

Tudo que eu precisava era manter o espírito livre, desencanar das certezas e ir contigo para aquele hotelzinho ali do centro, onde a gente pudesse trepar a vontade, tantas vezes tivéssemos vontade e fazer todas as coisas que tínhamos imaginado naqueles dias que precederam nosso encontro, pelo chat. Havia química, nosso astral batia,  o tesão rolava. Estávamos atraídos pela pele, pelas mãos,  pelo cheiro. O beijo tinha dado certo. Tudo bem que podia não ser nada do imagináramos, mas agora é tarde demais para saber. O tesão pode ter ido irremediavelmente embora. E eu não peguei no teu pau, não provei da tua porra, não sussurrei no teu ouvido "mete, me fode gostoso". Não gozei na tua boca.

Que merda (não consigo parar de repetir a mim mesma). 

Nosso primeiro encontro sozinhos foi o melhor. Ainda me restava alguma segurança. Mas ali já dei início àquele papinho bobo de quero ser sua amiga. Tudo bem que naquela noite não fôssemos para a cama, mas eu devia ter chegado naquele café, sentado do teu lado, encarado teu olhar e ter dito com toda a franqueza: "Eu estava louca para te ver". Tudo que eu queria era ter ficado ao teu lado. E você tinha aquele perfume maravilhoso, chegou a falar de uma possível paixão e me fez uma pergunta que só depois eu saberia a resposta. Sim, eu assistiria teus filmes ... e cuidaria com amor dos teus livros, ouviria teus CDs, tentaria decorar teus poemas preferidos e tiraria a roupa e ficaria de quatro cada vez que você me desejasse.   

E fui dando sequência às tolices e infantilidades. Depois que abrimos nossas câmeras, para que eu te visse gozando, sumi por quase 24 horas, te deixando grilado e confuso. Não me pergunte o por quê. Teria sido bem mais legal dar algumas risadas e te prometer que na próxima vez você gozaria ao vivo na minha boca...  e daí, durante aquele jantar no nosso segundo encontro, no restaurante perto do arco, eu não conseguia expressar nenhuma coisa inteligente e perdi a oportunidade de ouvir de novo os versos do Bandeira (que eu torço para que você se lembre deles).  O decote era ousado, tinha feito depilação, queria me esfregar em você, mas ao invés disso fugi naquele táxi amarelo. Fugi e não me perdoo quando lembro da expressão com que te deixei ali parado.

Podia dar tudo errado, sim. Talvez eu estivesse agora escrevendo este texto ao contrário, achando que trepar com você tivesse sido o maior engano da minha vida, mas o tesão que ainda me queima me diz que qualquer coisa teria sido melhor do que isso agora. A tua presença silenciosa na rede, as entradas e saídas do face, sem nunca mais piscar o alerta das mensagens a me avisar que lá vinha você, querendo falar sacanagem, ficar de pau duro de novo e bater uma punheta enquanto te fazia imaginar que era eu ali, debruçada na tua frente. 

E, finalmente, a merda daquele terceiro encontro, o pior de todos, cuja unica coisa sensata a ser feita era não ir. Teria sido lindo aquele passeio pelos casarões e ruas estreitas, livrarias e cafés, mas me superei na estupidez. Como eu pude achar que sobreviveria ao teu espírito arguto, tua mente afiada, teu olhar perscrutador? Só falei coisas tolas, sem sentido. Nenhuma resposta honesta. Só um desejo desesperado de aprovação, que tu cruelmente me negaste... Tudo foi tentativa inútil de consertar o que já não tinha mais conserto. E ainda que tivesse restado em ti um pouco daquele tesão que o movera até ali, o fogo se esvaneceu frente às minhas frágeis tentativas de parecer aos teus olhos um pouco melhor do que imagino que sou. 

Escondi o que eu sentia e agreguei burrice a tudo. 

Pior é ser consumida pela noção de que aquela pessoa que despertou teu desejo existe, sim. Há em mim um lado que permaneceria tua eterna ouvinte; outro que te acompanharia nos encontros, em busca de gente alto astral, e outro que viveria numa choupana, água, vinho e um pouco de pão, pelo menos enquanto perdurasse o desejo, estivesse vivo o tesão. Minha natureza romântica, submissa, passiva, só queria ser possuída por você. Falaria o que quisesses ouvir, juraria, cederia, fingiria ser tua escrava quando teus instintos de poder estivessem exaltados e praticaria todas os outros verbos que rimassem com aquela possível paixão.   

Mas o que fiz foi camuflar e tentar controlar nossos destinos. Boicotei o lance mais legal que rolou desde há muito tempo. E tudo que consegui foi aquele beijo na testa de despedida. 

Não era isso que eu desejava, o teu respeito, no lugar do teu pau e dos teus versos? 

Foi o que me deste. Foi o que mereci.  

Que merda.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O lado da felicidade

Eu falava de você enquanto seguíamos para a casa dele. Tínhamos conversado no bar sobre nosso trabalho, filhos, pequenas vitórias, decepções e agora o tema eram os relacionamentos, o amor. "Como vai o coração?" ele quis saber. Já se passou algum tempo, mas as lembranças são frescas. Conto como nos conhecemos, como as coisas começaram e o quanto nos envolvemos. 

Você sabe, eu não acreditava que você pudesse ir embora, como foi. Não acreditava que houvesse um fim, como houve. Entendi todas as suas razões para partir, havia tanta coisa em jogo, pessoas envolvidas, sentimentos. Seria canalhice, justifico. "E vocês nunca mais se falaram?". Acho graça. Separações e desfechos parecem importar mais que a história de amor. Deve ser porque na dor nos solidarizamos.

Estamos quase chegando à casa dele, mas temos tempo de refletir o quanto fomos importantes um para o outro. Você, um cara tão fechado, eu, uma mulher cheia de relacionamentos; você, com uma vida tão certinha enquanto a minha foi costurada em erros e desacertos; você, que sempre fez sexo seguro e convencional e eu, disposta às coisas mais liberais. Nossa diferença residia na dualidade: nunca pensei com a cabeça, você pouco se norteou pelo coração.  

Juntos, nos modificamos. Você viu que os conceitos podiam ser discutidos, reformulados, jogados pela janela; eu vi que certas coisas devem ser mantidas e preservadas para sempre.  Você experimentou o gosto da efemeridade, eu provei o sabor da constância, da permanência, do duradouro. Abrimos uma janela para ver o mundo como nunca antes tínhamos visto. Germinei em você a semente do inusitado, do prazer pelo devir. Você deixou em mim o desejo de criar raízes e acreditar em eternidades.

Agora você me diz que anseia por liberdade e deseja ir atrás do que te faz feliz, mas ainda que disposto a aventurar-se pelo mundo, você conduz seus dias na manutenção da vida edificada;  tudo ao seu redor gira como sempre.  Meu amigo desvia  a atenção da estrada e me lança um olhar cúmplice. Concordamos que sua felicidade, ao contrário do que imagina, pode estar ao seu lado.

Ao mesmo tempo, vou a caminho de mais uma aventura, algumas horas de carinho e sexo. Esqueço depois das três tulipas de chope que queria sexo com compromisso e telefonemas amanhã. Interessa o momento, o prazer da descoberta,  o que estamos sentindo, o desejo. Ficaremos juntos até o amanhecer e na despedida haverá um beijo na boca e nenhuma promessa. 

Ao acordar, já sozinha em casa, reflito: afinal, de que lado está a felicidade?